Sonho lúcido

Como uma manhã de inverno, embrulhada no edredon
Em pés recém saidos da cama,num chão gelado de pedra
A transição de choque para conforto, provoca sentidos duplicados
E se vale a pena ou não gelar os pés, eu não sei dizer
O mundo deveria ser xicaras fumegantes de um delicioso chá
acompanhado de quentes torradas amanteigadas.
Isso ilustraria a monotonia da prisão de um castelo, sem principe ou dragão.
Sem grandes cavalos ou guerras, sem imensos rios, sem imensas pontes,
sem uma imensidão de pessoas descontentes.
E esse mundo seria cinza, seu céu cinza e todas as suas particularidades virariam refrão.
Nada semelhante a fantasia real, projetada em cada qual, advinda de cada um
Onde as cores dançam em ritmos alucinados e vem de todas as direções, onde tudo o que fere
dá conselho e o riso pode significar lágrima, onde o transitório faz sentido no momento da transição
e se ela passa, ele perde a siginifação.
Onde a mentira e a verdade dão as mãos, para que construamos nossos castelos na obstinação dos homens.





Dúvida

Ouvi tiros ou eram fogos?
O leite demarrou sobre a mesa
ou foi um empurrãozinho que lhe deram?
O que tem dentro de mim é o que eu sou
ou eu sou aquilo que eu me tornei?
A lua nasce bonita daquela jeito
ou foi alguém que a pintou de prateado?
O latido do cachorro é sem motivo
ou o latido é um protesto?
A confusão em que eu me ponho, tem fundamento
ou tudo isso é coisa da minha cabeça?
Eu descubro o mundo ou é ele que está me
descascando?
A dúvida é frequente, por que é muda
ou é falando nisso que se acha a cura?

Mente

Eu voltei de onde não havia volta
Passei por onde não havia caminho
Perdi pertences provisórios
Desmordacei as amarras
Parti as correntes
Deixei em cacos,
dentes.
No controle
absoluto
apresento-lhes:

Mente.

Gigante

Um poço de sentimentalidade
Fielmente desestabilizada
Incoerentemente verde agua ou azul royal
Ou as duas coisas
Ou todas as imperfeições agrupadas
Em montes e montes de absurdo
Que chocam a realidade.
Onde as encostas daquele
cume verde,
se desgarram do céu.
Onde acaba um mundo.
E nasce outro.





Chão de nuvem

Esquento um chá pro meu bem,
para ele poder descansar
Não nego que o amo a ninguem,
embora finja controlar
Nem tudo o que me convém,
eu faço para lhe agradar
No abraço eu me sinto também,
e basta para aconchegar.

E nesse impasso
Eu fico manso
Não me canso de tentar
É só contigo que eu danço,
E Se piso em falso é pra continuar.

Planeta de possibilidades impossíveis

Uma só palavra não diz nada
Nenhuma palavra pode dizer muita coisa
Passível ou não de entendimento
O silêncio rodeia como bicho,
instala como cheiro,
conforta como o vento ou sacode como ele
Tudo depende de como
você sente o silêncio
E de como ele se sente
em você.

É bicho

Para ouvir o som das rochas
e pular por sobre o mar
e viver pela areia
deslizando nas conchas
Por-do-sol
Azul, laranja, roxo, cor-de-rosa
Verde mar,
infinita imensidão
Chuva, fugaz
rasteira
rala e fina rasga a pele
transparência azul
Aventura de pirata, em
corpos lentos de rum
E tapa-olhos solar
Vivendo na praia,
desbravando a alma,
numa vida calma.

Para saber o preço

Pensar demais me põe em erro
Erro que acaba em prantos
Prantos esses que levam a exaustão
Por que pensar demais
exauri a mim.
Morro no pecado.
Ao crime racional.
Enxame magnético de equações incertas
absurdas, incompreensíveis.
E adjetivos propensos aos loucos e burros,
portas e muros.

No ritmo frenético da pulsação
é idéia, pensamento, plano
Nadando contra a maré
na perspectiva da morte.

Sem nenhum

Eu deveria ter dito, deveria ter ido,
E mesmo que as vezes eu esteja fingindo
Sempre pode ser inocentemente verdadeiro.

Embora eu deite na cama lembrando,
acordo sem qualquer lembrança.
Eu não tenho esperança que isso possa se
descomplicar.

Eu deveria ter ido em todas as horas que eu estive
E me imagino dizendo frases de separação
Mas eu nunca digo.
Ao contrário eu rio e sorrio. E não minto.

Então me perco nessas incertezas fantasiadas
Que lembram bolo de casamento num dia
e lágrimas que rompem madrugadas no outro.

E cada pedaço de ilusão espalhado por ai
é mentira pro meu coração.

Fadado a viver vagando.


Fotografia

Eu gosto de fotos coloridas, de não-mobília
eu gosto de ver o azul do céu,
mais para cima marinho
mais pra frente azulzinho.
E ás vezes eu sinto uma brisinha
lembra alguma coisa que eu não sei o que é,
e me dá uma felicidade repentina.
Mas nem sempre eu sorrio, as vezes eu só sinto.
ás vezes eu fico rindo porque acho tudo tão engraçado.
A maioria das coisas eu não sei explicar,
acho que é por isso que eu rio delas.
E também porque eu sinto ser algo muito grande e bonito
e brilha tanto quando eu olho.

Isso me faz sorrir ou rir ou sentir, tanto faz.
E tudo é ainda mais lindo do que eu imaginava.

O confronto ou o sofá para quem dorme

A falta de sono vira sonho
logo eu não me vejo mais
e eu sou os olhos de alguém
que não sei dizer quem sou.
Verdade vira vertigem, e
derrubo com nuvens muros
carregados de não-lembranças.
Eu virei mentira mentirosa
e engano a mim mesmo, sem ao menos
acordar para isso.
Não ter mente, corpo ou alma, ser
não ser.
É viver como quem vive.
Flutuando vestido de anjo em meio
a gigantes homens de poeira e pedra,
eu durmo.
E acordo com o copo vazio,
vagando vazio,
num corpo vazio.